por Moscou
em 04/11/2009 11:45
Foram três. Não, quatro! Não sabia ao certo. Recordava somente os vultos que os cercaram e desfilaram os socos e pontapés em seu corpo. Ali foi encontrado, às traças, coberto de sangue em meio a sussurros e gemidos.
Tudo começou no dia anterior, quando saiu de seu trabalho e foi para o bar mais próximo à busca de luz, mas encontrou tão somente um copo empunhado às suas mãos, aonde tomava, além do uísque, coragem.
No ambiente havia mais um, o garçom, que sabia que clientes como aquele, sozinho, fodido, deixam boas gorjetas para compensar os bichos soltos no ambiente. Então sorria, e o servia, caprichando nas doses com choros, já que alguém àquela altura havia de chorar.
Foram cinco, seis, sete. Perdia as contas. Observava de cima as antenas piscando, o mar de farol vermelho dos pés nos breques, a garoa que caía fina, fria e que umedecia o paletó dos que entravam no metrô, e a capa de chuva daquelas que protegiam os seus cabelos chapados.
Ao seu lado sentou uma mulher. De cinema. O santo desconfiou, devia ser puta! Valeria a pena, àquela altura? Deixou pra lá, pro canto de lá, onde a energia era quase boa, com sorrisos de contratos fechados e tapas empresariais nas costas. O canto daqui era outro, cinza, amargo e quase fúnebre.
Seus cotovelos apoiados no balcão já molhados pelo degelo dos copos estruturavam a sua cabeça. O que faria ainda não sabia. Havia só o esboço. Tinha a consciência quase limpa, afinal tentou, havia tentado. Um, dois, três meses. Puta que o pariu, não tinha mais jeito.
Seus demônios gritavam em seus ouvidos lhe mostrando a liberdade que o seduzia a satisfazer só a si sem dar satisfação a ninguém. Esfregavam à sua cara a libertação feminina, da qual se consideravam causadores, cheia de olhares, indiretas, diretas e cruzados. E ele, coitado, nada podia fazer.
Enquanto isso, os santos cochichavam, sentados bem lá no alto, em cima do muro, balançando as suas pernas. Era a natureza humana, incompreensível...
Ia embora segurando o seu paletó quando, na porta, o garçom lhe entregou a pasta 007 que ficava para trás. Como gratidão, uma onça em seu bolso do paletó. A puta ainda estava lá, cruzando as pernas no balcão, deixando seu rastro de gratidão comprada no ambiente e tentando derradeiramente resgatar a possível fonte de renda que se esvaía cambaleando. Cheia de incerteza...
Preferiu ir de taxi, no banco de trás, ouvindo o papo sobre o brasileirão enquanto procurava em seu telefone o número dela. Precisava ligar. Esboçou um contato, mal sucedido, faltou coragem. Pensou ir a sua casa, matar com as palavras quem estava o matando, resolver vez por todas o seu impasse, desatar o nó de seu estômago, a bola de sua garganta e a úlcera que se formava. Faltou coragem.
Acordou em sua cama, atrasado, com o pulsar de sua cabeça, com a ânsia de seu estômago, se martirizando, remoendo e se odiando, largado às traças, sangrando por dentro, em meio aos sussurros dos porquês, e dos gemidos do até quando.
Foram três, não, quatro vezes que tentou! Não aguentava mais, precisava terminar com ela.