Vândeu e De Marco
  por Moscou
  em 29/03/2010 11:48
De Marco era cafona ao começar pelo seu nome. Sempre usava uma calça branca réplica barata de couro de cobra, uma bota country de bico fino e uma camisa verde musgo com chifres de touro desenhado nas costas.

As noites se aboletava nas mesas dos bares e perdia-se em doses de conhaque e nas pernas alternantes das moças no vai-e-vem da rampa de seu escritório, a Rua Augusta.

Era sócio e amigo de Vândeu, uma peça oriunda do sul do país, com sotaque dos pampas apaulistado e gosto duvidoso para as vestimentas, assim como seu amigo.

Sobreviviam de bicos ou às vezes de chutes nos irremediáveis playboys que faziam arruaça em seus carros na parte baixa daquela artéria que ligava o alto ao centro de São Paulo.

Eram seguranças das boates onde as moças vendiam seus carinhos por preço acessível aos limítrofes da pobreza. Algumas eram gordas, feias, doentes ou magras demais. Já as bonitinhas, ou menos ruins, eram regalos aos mais afortunados ou sócios de seus patrões e vivam ignorando os dois. Todas, sem exceção, comentavam em tom de desabafo o nojo do bigode castanho claro ralo com fios mais compridos que De Marco ostentava embaixo de seu nariz.

Em tempo de vacas gordas – literalmente - os dois atendiam duas ou três boates por noite, o que lhes rendia o pão, a cerveja e o lazer de cada dia. Afinal, quanto mais barato o programa, mais cara a confusão.

De Marco se derretia por Ana Mariana, uma morena de olhos leves que após terminar com seu namorado, um coroa cabeludo que vendia antiquidades em uma Marajó marrom, vivia sozinha na quitinete vizinha a dele e recomeçava a vida à só.

Ana Mariana era manicure e atendia num salão de beleza ao lado do prédio onde moravam. Geralmente, quando De Marco estava chegando do serviço, ela estava saindo para trabalhar, e cumprimentavam-se com olhares ou então algum som indecifrável vindo da boca – do estômago, no caso dele.

De Marco fazia questão de aparar seu bigode e seu cabelo no salão onde Ana Mariana trabalhava. Mesmo que tal luxo saísse de seu orçamento. Assim podia olhar para as madeixas e trejeitos da moça pelo espelho enquanto aparentava prestar atenção numa revista de celebridades. E ela, fingia não perceber.

Apesar do estirpe esquisito, Ana Mariana não o considerava de todo o mal, pensava que com um pouco de bom gosto e um toque feminino ele ficaria até razoável. Ainda mais sendo ele o seu vizinho de porta.

Já Vândeu, tirando sua paixão pelo colorado, não se emocionava tão facilmente, mas seu coração fervia de raiva, principalmente diante de piadas bairristas e preconceituosas sobre seus conterrâneos. Ele ficava puto e sobrava à racionalidade e frieza de De Marco abrandar Vândeu e seu ímpeto explosivo.

Certa vez, quando já era noite, Ana Mariana voltava de um atendimento domiciliar passando pela Rua Augusta. Vinha dos Jardins, onde acabara de embelezar vinte unhas e arrancar um bocado de cutículas de uma madame gente-boa. Caminhava e perdia-se em pensamentos ritmados pelos estalos de seu sapato no asfalto sujo, mas colorido pelos chicletes secos e bitucas no chão ali deixados pelos indie rockers e alternates que frequentavam aquela região. Pensava na vida, na sorte em não acabar como as moças que nas esquinas trabalhavam e sorria, pouco, mas sorria.

Algumas centenas de metros e passos depois, como um susto, deparou-se com seu vizinho - naquele dia de camisa amarela e calça escura - segurando com força pelo colarinho um bêbado e expulsando-o de dentro de uma boate de fachada com luzes neon verdes e vermelhas que simulavam o balancê de pernas de uma Moulin Rouge comedora de acarajé.

Ela olhou para o chão, fingiu não ter o reconhecido e reformulou todas as impressões que tinha sobre o seu vizinho admirador. Desfez o sorriso e naquela hora, e talvez naquela noite, entristeceu. Andava sonhando, na inocência e devaneios de menina-mulher, um dia, conhecer o rosto por detrás daquele bigode.

(continua)
O tricampeão mundial de qualquer-coisa
  por Moscou
  em 04/03/2010 14:02

O universo está repleto de pessoas chatas. Em qualquer lugar do globo que você esteja haverá um pentelho de plantão. Seja por falar demais, por ter razão em tudo, o sem justificativa, o dono da verdade, o que só fala e não escuta ou até mesmo o que não diz nada.   

Segundo o dicionário Houaiss, chato é aquele que aborrece, irrita, estorva, perturba ou preocupa. Indo mais adentro – literalmente – encontra-se o chato sendo o piolho que habita a região pubiana masculina, nojeira da qual tratarei oportunamente em outro texto.

Atendo-se à primeira definição, de todos os chatos e pentelhos que podemos imaginar, nenhum incomoda e é tão inconveniente quanto o tricampeão mundial de qualquer-coisa.

Este ser, residente perpétuo da masmorra da baixa auto-estima, estende o seu atributo primordial a uma distância inatingível por qualquer outro chato. E cansa, dá preguiça.

O tricampeão mundial de qualquer-coisa conhece tudo. Ele criou Deus, e não o contrário. Ele entende minuciosamente da fisiologia macrobiótica dos átomos e prótons que formaram o universo até a data e hora exata de quando Eva tornou-se mulher, sangrando nos confins do paraíso. Como se não bastasse, sabe diferir se a maçã mordida por ela era do tipo Fuji ou verde.

Não importa as experiências de vida pelas quais você já passou enquanto ser-humano, o tricampeão do mundo de qualquer-coisa supera e vai muito além com sua vasta vivência, contando suas histórias inimagináveis e surpreendentes, buscando, à qualquer custo, a atenção de uma roda qualquer.

Você pode ter sobrevivido à pisadas de elefantes que o indivíduo saca de seu repertório uma história muito mais interessante, de como ele, ou um amigo muito próximo – geralmente muito mais "chegado" que você - sobreviveu à um ataque de hipopótamos em meio à avenida Paulista.

Podes ter sido sequestrado por Bin Laden que ele, ou seu parceirão de sangue, estava junto do Fenômeno Ronaldo quando esse acabava de conhecer Andréia Albertine, o travesti que ferrou – ao pé da letra – aquele jogador de futebol. E ainda mais, Fenômeno ligava pra ele chorando arrependido após o escarcéu que sua vida se tornava.

Nada e nem ninguém, superam as histórias do tri-campeão mundial de qualquer-coisa.

Quando se trata de esportes então, principalmente os radicais, onde a bravura e coragem são essenciais, lá aparece nosso amigo, pomposo ou esboçando uma humildade inerente aos bons, contando de como domou ondas de tsunamis no Havaí, de como faz para manter por dias os 70km/h pedalando no Ultraman do Japão, de como pratica snowboard na garganta dos vulcões mais ouriçados do anel do fogo ou até explicando os meandros da física da raquetada de squash, esporte que domina com perfeição.

E tudo isso, sem falar nas mulheres que já comeu ou de seu círculo social, retendo em seu celular os números mais íntimos de artistas globais, passando por senadores americanos até o mais cruel dos líderes do PCC.

Das raças dos chatos são os piores, como gremlins espalhados pela sociedade, fazendo dos outros os tricampeões mundiais do saco cheio, da audição seletiva e do sorriso amarelo.

Haja paciência.

Aliás, ninguém imagina o que tenho passado com certos tricampeões mundiais...