A vovó
  por Moscou
  em 16/11/2009 12:23
Escorado no banco da bicicleta, com um pé no meio fio e outro no pedal, aguardava o momento de atravessar à rua na irrespeitável faixa de pedestres. Em São Paulo, se não está dentro de um carro, ônibus ou caveirão, os motoristas não consideram mesmo.

De pensamento solto, meus olhos prenderam-se a ela entre os vrum-vrums dos automóveis e os bi-bis das buzinas dos cavaleiros de Lúcifer. Era uma senhora, esperava o ônibus, e pela aparente simplicidade, no mínimo devia contabilizar vários sucessores. Bom, dizem que ter família grande é legal.

A vovó – assim a apelidei - era a mais idosa do ponto, competia talvez com um homem de olhar cheio de pregas e cabelos acajuados por algum experimento de uma neta metida à besta. Mas ele era robusto e tinha as pernas firmes, diferente dela.

Para acabar com a espera, vieram os latões rasgando a faixa preferencial, pulando nas marolas do asfalto e assoviando os freios para avisar que chegavam. Umas quinze pessoas esticavam os braços. A vovó, não, franzia os zóinhos para dar o foco e conseguir ler o destino da viagem.

Leu! Era aquele mesmo. No letreiro do bumba um jardim alguma-coisa. Devia ser longe pra dedéu. Então ela apertou o passo, a sacola que segurava, e saiu ansiosa em direção ao ônibus que encostou há uns vinte metros de distância. Seu cabelo branco, ainda com pinta de banho de final de tarde, balançava no ritmo de seu corpo.

Nessa disparada, uns cinco passaram a sua frente sem lhe dar a mínima, enfileirando-se na porta do transporte público indecente que os aguardava já sem paciência alguma.

Entrou na fila da escadinha, todos pareciam muito altos ao lado dela, inclusive um vendedor de sorvete, baixinho, qual seu isopor estava leve diante da demanda da tarde quente de estalar o chicote.

Ela subiu as escadas com a ajuda do corrimão e sentiu a sauna de ônibus lotado das seis e pouco que não daria trela. Cambaleou por uns instantes. Quem estava sentado olhou para o chão ou cerrou os olhos perdendo-se no som do player, procurando não cruzar olhares e insinuando fraqueza ou cansaço que justificasse a má educação.

Foi ignorada, mas sem abalos, abraçou a trave, mirou o horizonte e foi em pé, segurando firme na levada de mais um dia para o tal jardim-bem-longe.

Pedalando, pensei nos assentos preferenciais, direitos dos idosos, educação... Enfim, a vovó já devia estar acostumada.
O copo e a coragem
  por Moscou
  em 04/11/2009 11:45
Foram três. Não, quatro! Não sabia ao certo. Recordava somente os vultos que os cercaram e desfilaram os socos e pontapés em seu corpo. Ali foi encontrado, às traças, coberto de sangue em meio a sussurros e gemidos.

Tudo começou no dia anterior, quando saiu de seu trabalho e foi para o bar mais próximo à busca de luz, mas encontrou tão somente um copo empunhado às suas mãos, aonde tomava, além do uísque, coragem.

No ambiente havia mais um, o garçom, que sabia que clientes como aquele, sozinho, fodido, deixam boas gorjetas para compensar os bichos soltos no ambiente. Então sorria, e o servia, caprichando nas doses com choros, já que alguém àquela altura havia de chorar.

Foram cinco, seis, sete. Perdia as contas. Observava de cima as antenas piscando, o mar de farol vermelho dos pés nos breques, a garoa que caía fina, fria e que umedecia o paletó dos que entravam no metrô, e a capa de chuva daquelas que protegiam os seus cabelos chapados.

Ao seu lado sentou uma mulher. De cinema. O santo desconfiou, devia ser puta! Valeria a pena, àquela altura? Deixou pra lá, pro canto de lá, onde a energia era quase boa, com sorrisos de contratos fechados e tapas empresariais nas costas. O canto daqui era outro, cinza, amargo e quase fúnebre.

Seus cotovelos apoiados no balcão já molhados pelo degelo dos copos estruturavam a sua cabeça. O que faria ainda não sabia. Havia só o esboço. Tinha a consciência quase limpa, afinal tentou, havia tentado. Um, dois, três meses. Puta que o pariu, não tinha mais jeito.

Seus demônios gritavam em seus ouvidos lhe mostrando a liberdade que o seduzia a satisfazer só a si sem dar satisfação a ninguém. Esfregavam à sua cara a libertação feminina, da qual se consideravam causadores, cheia de olhares, indiretas, diretas e cruzados. E ele, coitado, nada podia fazer.

Enquanto isso, os santos cochichavam, sentados bem lá no alto, em cima do muro, balançando as suas pernas. Era a natureza humana, incompreensível...

Ia embora segurando o seu paletó quando, na porta, o garçom lhe entregou a pasta 007 que ficava para trás. Como gratidão, uma onça em seu bolso do paletó. A puta ainda estava lá, cruzando as pernas no balcão, deixando seu rastro de gratidão comprada no ambiente e tentando derradeiramente resgatar a possível fonte de renda que se esvaía cambaleando. Cheia de incerteza...

Preferiu ir de taxi, no banco de trás, ouvindo o papo sobre o brasileirão enquanto procurava em seu telefone o número dela. Precisava ligar. Esboçou um contato, mal sucedido, faltou coragem. Pensou ir a sua casa, matar com as palavras quem estava o matando, resolver vez por todas o seu impasse, desatar o nó de seu estômago, a bola de sua garganta e a úlcera que se formava. Faltou coragem.

Acordou em sua cama, atrasado, com o pulsar de sua cabeça, com a ânsia de seu estômago, se martirizando, remoendo e se odiando, largado às traças, sangrando por dentro, em meio aos sussurros dos porquês, e dos gemidos do até quando.

Foram três, não, quatro vezes que tentou! Não aguentava mais, precisava terminar com ela.