por Moscou
em 03/02/2009 10:52
Carnaval me aporrinha. Um feriado ótimo se pensarmos nos dias de descanso que acabamos não aproveitando. Preocupação para viajar, horas de fila para fazer o que for, bêbados por todos os lados e um consumo de energia física e mental fora do comum.
Farofada pegando fogo pelas estradas. Caravana de no mínimo cinco carros abarrotados por casa alugada. Cada um leva a sua churrasqueira portátil, câmera de pneu para fazer de bóia, cachorros, pacotes de papel higiênico espremidos no vidro de trás, duas tias velhas (necessariamente gordas e suando) reclamando de suas doenças reumáticas com as crianças no colo chorando e impacientes. Só de olhar já cansa.
A casa alugada, geralmente um sobrado que nas fotos do site da imobiliária parecia muito maior, contraria todas as leis da física. Média de dez pessoas por quarto onde dois ou três corpos ocupam o mesmo espaço. A laje, se tiver, vira o ponto de encontro dos descolados e jovens da família, se a casa não possuir tal estrutura a rua cumpre a função para um pagode ou um proibidão de chocar os puritanos.
Ninguém dorme! Quando o avô pega no sono o neto acorda chorando, quando a tia gorda pega no sono, o pivete fila o ventilador só pra ele. O futebol na sala rola o dia inteiro, a fila para o banheiro também, banho só de chinelo, papel higiênico úmido se desfaz na mão e o primo de não sei quem interdita o banheiro logo em sua primeira barrigada.
A privada entupida. "Põem o cone na porta!", grita o tio bebum. Cada um com uma teoria. Não tem desentupidor? Põem jornal e senta em cima da tampa pra fazer pressão, usa um arame, joga coca-cola, reza... O primo adolescente aproveita a confusão na porta do toalete para tirar uma casquinha daquela prima inocente e voluptuosa. À noite, punheta!
Quando abre o sol é hora de ir pra praia. Mas se abrir também não tem problema, se vai na chuva mesmo. Na ida o proibidão comendo solto, quanto mais baixaria melhor, os ouvidos da molecada no banco de trás do carro sangrando pelo volume extremamente alto devido “as seladas” que o cara tunou no carro de no mínimo quinze anos de idade. Fila, fila, fila, fora o suplício para achar uma vaguinha.
Abre à porta do carro, a tia sai com dificuldade, a bola sai rolando com a gurizada correndo atrás, as sobrinhas mais novas, encabuladas, dão um perdido e saem pela tangente, a churrasqueira e o isopor, razão e símbolo de adoração, têm tratamento vip.
A areia beira os cinquenta graus. O buraco no mar é ignorado pelos que vão tentar surfar, a tia velha encalha na beira do mar brilhando com seu maiô verde-limão cheio de areia, o avô, único contido, vai pescar. Todos bebem muita cerveja quente e caipora de alguma fruta com Velho Barreiro. A comida se resume em frangão, canja na garrafa térmica e salgadinho. Gordura trans a rodo, revertério estomacal, cerveja quente fermentando com bolinho de aipim passado.
O futebol não para nunca. A molecada chuta a bola na espuma da onda, no guarda sol e barraca da família ao lado. A guerra de areia explode, crocodilagem pura, vale até jogar areia no olho, não importa se é na avó, na tia ou no sobrinho. A prima acaba cedendo e chorando de dor. Uns ficam putos por que acharam que foi sacanagem jogar areia na batida de coco que ele foi buscar no quiosque lá no outro canto.
Final de tarde, uns já desmaiaram duas vezes, todos os quarenta que disputaram a sombra do guarda-sol estão extremamente queimados e, quem passou protetor solar, não passou direito e esta todo manchado.
Hora de ir, ainda tem o trânsito da volta. Um abraço no salva-vidas para agradecer o salvamento de metade da família, cada carro com seus integrantes em amplo desconforto grudados pela mistura de areia, sal e muito sol.
À noite sanduíche de “mortandela”, cansaço agudo e é lógico, o Deus novela. Todos dormem realizados, com as almas leve e extremamente contentes em saber que amanhã, faça chuva ou faça sol, será outro dia.
E você, para onde vai viajar no carnaval?
"Argh, que puta nojo!"