A Estrela
  por Moscou
  em 23/06/2010 12:27
Não me recordava da última vez em que tinha visto uma estrela cadente rasgar o céu, chamejando o seu rastro de astro rápido e enchendo os meus olhos de esperança, afinal, por trás da cadencia de toda estrela uma hipótese de pedido realizado é criada.

Essa surgiu num entre nuvens esquisito, numa noite fria e teoricamente sem atrativos, brilhando e mostrando a sua beleza para quem conseguisse enxergar. Aparecida, vaidosa ou triste, não sei dizer.

Talvez se sentisse velha demais com os seus milhares de anos luz e se jogou no espaço, entediada por há tanto tempo enfeitar o céu e iluminar os olhos dos que daqui buscam por respostas ou inspiração; Ou então foi ela uma estrela nova, faceira, querendo animar e colorir a noite que mesmo majestosa está tão velha e cansada.

De qualquer forma ela rabiscou por detrás da névoa que dava a impressão aos olhos não estar enxergando bem. E ali, naquela fração de tempo entre o aparecer e sumir deixou a sua marca no espaço.

Que sorte tê-la enxergado.

Quebrou-se o ritmo do tempo, da terra e da respiração. O prateado largado no céu continuou na retina, mas esse foi muito além da luz. Deu-se a hora de mentalizar e energizar o melhor – que acredito seja o que todos façam – para si, outros ou ambos.

Os pedidos e desejos são feitos em prol da felicidade. Cada um, buscando-a a sua maneira: através do sucesso, posses, amor, paz ou saúde. Esses dois últimos, penso eu, a chave para qualquer um dos outros.

Mas ao contrário, poucos são os que agradecem o que a sua existência já lhes tem oferecido. E insatisfeitos exaltam as estrelas do céu esquecendo-se de cuidar da própria estrela que os habita, a mais importante.

Mesmo quando tudo parece não estar como gostaríamos, agradecer pelo que a vida já nos deu é o primeiro passo para aspirarmos o "algo a mais" que acreditamos muitas vezes faltar. Compreender o momento e a forma que a vida se desenrola é alicerçar o futuro desejado.

Não se sabe se aquela pequena estrela teria se destacado numa noite com tantos dos outros astros que compõem o céu. Mas naquele momento, oportuno ou não, ela pulou, apareceu, cintilou, trilhou o universo, se foi, e desencadeou uma série de sentimentos nos privilegiados que a enxergaram.

Depois que a vi fiz um pedido, não nego. Mas se possível, o trocaria para agradecer o simples fato de, numa noite fria e teoricamente sem atrativos, tê-la visto rabiscar o céu.

Espero que ainda dê tempo.
Vândeu e De Marco - Parte V
  por Moscou
  em 26/05/2010 14:23
No dia seguinte Vândeu e De Marco trabalhavam como se seus pés não tocassem o chão. Usavam de pouca agressividade e até os fregueses arruaceiros estranhavam a gentileza com a qual eram expelidos de dentro das boates.

De Marco, alheio ao mundo, só pensava em Ana Mariana. Lembrava, lembrava e lembrava. Sorria, sorria e sorria.

Já Vândeu, sem que De Marco percebesse, também desfrutava dessa magia se pegando sorrindo e fantasiando enquanto tocava a vida e seu segredo da forma que dava.

Naquele dia, até as meretrizes, velhacas da vida, mas que ainda sonhavam em encontrar seus príncipes compartilharam daquela energia e no meio da cólera de suas atividades reviveram um pingo da esperança já esquecida.

Eram os "efeitos do amor" como brincavam soltando frases prontas quando fregueses mais carentes quebravam as suas couraças com olhares afetuosos. Naquela vida, sonhar era necessário.

Ana Mariana, por sua vez, pintava as unhas das madames com delicadeza, usando de suavidade para colorir não só a ponta dos dedos, mas também a estima das freguesas que buscavam o que ela mais tinha naquele momento: felicidade.

Esse clima harmonioso onde as cores e cheiros eram diferentes foi quebrado somente quando De Marco, voltando para a sua casa, entendeu que o separava a sua intimidade da de Ana Mariana era uma parede fina de concreto.

Em casa mudou os seus hábitos. Ligou a televisão, andava na ponta dos dedos, sentiu-se inseguro sobre seus gostos musicais. Parou de gritar seus gazes por ambas as vias e se fosse preciso abafava-os com seu travesseiro. Tentou não fazer, mas sem controle afinou os seus ouvidos para escutar a movimentação de Ana Mariana, com quem ela conversaria no telefone, o que fazia acordada hora tarde da noite e cogitou se devia bater-lhe a porta e lhe desejar boa noite. Aquela proximidade, até então puramente física, o deixava maluco.

Agoniado, deixou sua quitinete, encostou a porta sem alarde e caminhando pelas ruas do centro, já de madrugada, foi ao prédio onde Vândeu morava. Precisava conversar com seu amigo.

Vândeu abriu a sua porta. Estava sozinho, usava uma samba-canção vermelha de seda e um hobbie azul marinho, tomava vinho numa taça e ouvia músicas de cantoras dos anos 80. Certamente não entendia nada que falavam na letra. Emancipava um bigode esquisito.

Apesar da amizade, De Marco havia conhecido a casa de Vândeu somente uma vez, e pelo que lembrava, era muito diferente daquilo que via: plantas e flores por todos os lados, decoração moderna, vasos decorativos e tapetes felpudos. Havia dedos e traços de mulher naqueles detalhes. Só podia.

De Marco foi logo perguntando qual mulher andava virando a cabeça de Vândeu.

Vândeu, desconcertado, largou seu copo, respirou fundo trazendo seus ombros para cima e depois para baixo e disse:

- De Marco, porra, eu sou gay!

Um silêncio imperou dentro daquele apartamento.

- Então aquele cara com quem você estava...

- Era meu namorado, o Lélio!

De Marco juntou o restante do quebra-cabeça e não hesitou:

- Então de cabeça de mulher você entende, certo?

Vândeu fez que sim e De Marco sentou no sofá aliviado, e pouco se importava com o que seu sócio fazia ou deixava de fazer, àquela altura, tinha problemas maiores para resolver.

Conversaram por uma boa parte da noite sobre seus namorados, e em sintonia perceberam que ambos estavam apaixonados.

Enquanto isso, um pouco longe do clima rosa e grafite da conversa entre os sócios, Ana Mariana aguardava, com um pouco de ansiedade, a hora em que De Marco poderia bater a sua porta, para lhe desejar bom dia.
Vândeu e De Marco - Parte IV
  por Moscou
  em 05/05/2010 13:21
"Conheço um bar ótimo!" E emudeceu.

Um ou dois andares depois, Ana Mariana, replicou:

"E você vai me levar lá?"

Ele fez que sim com a cabeça arregalando os olhos, como quem havia esquecido o essencial. Então se olharam e embaraçados riram daquela situação patética, derretendo parte da neve que caía dentro do elevador.

Desnecessário dizer que quando saíram do prédio, o porteiro, eterno conhecedor da vida dos condôminos, lhes deu, sem que percebessem, uma olhadela malandra insinuando cafajestagem. Atributo da profissão.

Caminhavam pelas ruas do Cerqueira Cesar rumo ao bar escolhido por De Marco. E entre alguns mendigos e ruas sombrias, conversavam sobre o quanto aquele bairro era prático, fofocas de alguns moradores, pecados do síndico e falaram até da profissão de Ana Mariana.

Quando entraram no bar, a moça sentiu-se aliviada: um ambiente com meia-luz, tons amarelados, quentes, a parede era coberta por fotos de atores e músicos da época de ouro, havia um lustre central enferrujado, poucas mesas estavam ocupadas, havia um garçom que provavelmente ganhou várias de suas rugas e cabelos brancos ali trabalhando e um tecladista ruivo e sardento que tocava músicas nacionais pop com uma voz terrível. Ponto para De Marco.

Pediram por uma cerveja e De Marco, querendo se exibir fez questão de frisar ao senhor que os atendia o quão gelada gostaria que estivesse a sua garrafa. O garçom e a moça acharam tudo aquilo meio esquisito, mas tudo bem.

Continuaram entretidos e falaram de suas famílias, infância e voltaram a conversar sobre a necessidade de esterilizar alicates para não infeccionar cutículas, até que, mudando o rumo, a prosa virou à De Marco.

"Sou segurança de boates." Disse.

"Quais boates?" Perguntou, como se já não soubesse.

O ritmo da conversa foi quebrado e o descompasso realçado quando a única coisa que se pôde ouvir foi o tecladista gritar: "ok, você venceu, batata frita", enfatizando, precariamente, a voz de Evandro Mesquita.

"Trabalho nas boates da Rua Augusta. Naquelas onde as moças se vendem." Ao dizer isso, sentiu vergonha. Mas olhou-a nos olhos e disse que não tinha nenhuma relação com a cafetinagem.

Ela acreditou. Sentiu-se aliviada ao saber dos limites de sua atividade.

Até aquele momento, Ana Mariana conduziu o encontro. Mas depois disso, quando menos esperava, passou a ser guiada por De Marco, que controlado pela primeira vez na noite, assumia as rédeas de toda a situação.

O músico uivava "você não soube me amar", Ana Mariana se perdia em nostalgia e De Marco, surpreso, avistava Vândeu, seu parceiro, adentrando no bar com um amigo.

Ana Mariana, vendo o interesse do seu vizinho por quem chegava ficou intrigada e quebrou o pescoço para ver de quem se tratava.

"É meu sócio." Disse De Marco, apontando para Vândeu.

Os dois sentaram numa mesa de canto sem avistar De Marco, que primeiramente estranhou o pedido de ambos – duas caipirinhas de frutas - e então o amigo de Vândeu: um moreno, corpo atlético, barba, cabelo e roupas impecáveis. Até o seu sapato combinava com o cinto. Um ar nebuloso e delicado instalou-se ali.

Havia algo de estranho naquela mesa e Ana Mariana percebeu que De Marco queimava os seus neurônios para entender o que faltava ou havia em excesso. E ela sensível, como só as mulheres são, entendeu rapidamente do que se tratava.

"Faz tempo que você trabalha com esse cara?" Perguntou.

"Trabalhamos juntos faz três anos, além de sócio ele é meu melhor amigo, me conta tudo."

Ana Mariana, com olhos brilhantes de menina levada, riu maliciosamente por dentro.

Passado o episódio, De Marco ficou de cumprimentar seu sócio em outro momento, talvez quando estivessem indo embora ou então quando fossem ao banheiro. Na verdade, preferia não ter de passar por aquilo. Não queria se expor e apresentar no primeiro encontro, a moça com quem saía e era apaixonado.

Em determinado momento, lá pela terceira garrafa de cerveja, De Marco tomou coragem e encostou, como quem não percebesse, seus dedos na mão de Ana Mariana, que estava propositalmente caída para o seu lado. No começo ela pensou em tirar, depois relaxou e deixou que ele, devagarzinho, pegasse em suas mãos. O que ele fez olhando para o tecladista, que cantava nessa hora uma canção de Ivan Lins.

Uma garrafa e meia de cerveja depois, Ana Mariana, já alta, deixou ser levada pelo seus instintos e o puxou para perto de seu rosto. Sentiu o seu cheiro, o seduziu numa dança entre os olhos e esperou ser beijada. Agradeceu a Deus por ele ter raspado o bigode.

De Marco desacreditou tudo aquilo, e naquele instante, desritimado, e carregado de uma energia que há muito não sentia, pensou a sua vida valer a pena.
Vândeu e De Marco - III Parte
  por Moscou
  em 28/04/2010 11:18
Após um banho rápido, pois naquele dia havia trabalhado até tarde, Ana Mariana, enrolada na toalha, fechou as cortinas verdes frente à janela de seu quarto e passou a se vestir para o encontro com o seu vizinho.

Sim, De Marco, após a inusitada visita ao salão, diante de lábios trêmulos – e sem bigodes – convidou-a, num desconcertante tom adolescente, para um encontro. O primeiro deles.

A moça, portanto, para não dar bandeira de sua afobação, ligou a televisão e buscava silenciar o rangido do abre e fecha das portas de seus armários e gavetas, enquanto jogava algumas das inúmeras possibilidades por cima da cama.

A simplicidade de um bar àquela altura tornava-se um martírio para ela, que não conseguia discernir seus humores e o seu corpo para escolher a roupa que lhe tornava desejável. Ainda mais sem saber para onde seria levada, outro motivo preocupante.

Foram vestidos, saias, blusas e sapatos trocados. Cabelo preso, solto, maquiagem acentuada, mas pouco carregada. A calcinha e sutiã eram pretos, sem renda. Esborrifou um perfume que havia ganhado de aniversário atrás do cabelo, mas sem exageros. No fundo tinha medo dele pensar ser ela mais uma mulher da baixa Augusta. Hipótese que ele descartava.

Não sabia se fazia o tipo menina, mulher bem resolvida ou carente. Se iria se abrir ou se deixar levar aos poucos. Imaginava mil possibilidades, situações e conversas. Se pegou olhando nos olhos dele.

Optando pelo certo, vestiu-se e buscou ser ela mesma. Um vestido marrom, levemente cintado, ombros de fora e cabelo preso. Nada vulgar, mas sabia explorar os pontos altos de seu corpo. A harmonia de seus ombros com a sua nuca deixavam os homens com a boca seca. Era o que já haviam dito a ela. Mais de uma vez.

Queria aproveitar a oportunidade para de fato conhecer o seu vizinho. Diferente da superficialidade – que diz bastante coisa – em ouvir os barulhos abafados do cotidiano quando ruídos atravessavam a parede que dividiam suas quitinetes.

Estranho é o paradoxo proximidade versus distância de morar num prédio de apartamentos em São Paulo. No fundo sabia tão pouco sobre seu vizinho, mesmo com ele dormindo ali, do outro lado do concreto. Será que ele saía com putas?
Afinal, ele trabalhava nas casas neon cuidando do entra e sai dos fregueses. Ao menos da porta. Até hoje ela nunca tinha escutado nada.

De Marco, por sua vez, estava inquieto. De meias, para que ela não ouvisse o toc-toc dos sapatos, andava em círculos pela sua minúscula sala sem parar. A ansiedade lhe dava pontadas no estômago dignas de se acabar no banheiro.

Nervoso, pois não imaginava o que ela pensava dele. Perguntou-se como seria a reação dela ao saber os lugares em que trabalhava? Teria ele aparentado nervosismo demais ao convidá-la para sair? Surtava em alta rotação.

Possuía uma baixa auto-estima, o que lhe deixava mais inseguro e com desconforto estomacal. Naqueles instantes sentiu-se pelado pela falta de seu bigode. Talvez quisesse se esconder atrás dele. Começou a pensar ter sido uma má idéia o convite, mas não havia como retroceder. Maldita hora em que ela foi ser a sua vizinha.

Chegava a hora de vestir os sapatos, mordiscar um chiclete e tocar a campainha ao lado. Um último copo de água, que antes tivesse algumas colheradas de açúcar, pegou a carteira e bateu a porta, mostrando que havia saído de casa. Havia esperado cinco minutos além do combinado.

A essa altura, Ana Mariana sentada em sua cama, já pronta, assistia mordendo os dedos, mas sem prestar atenção, a novela, e sabia que sua campainha tocaria em segundos. E foi o que aconteceu.

A moça pegou sua bolsa, balançou sua chave para que ele ouvisse a aproximação e abriu a porta. Mirou De Marco, de camisa menos extravagante, calça escura e bota semi-country, assim definida por ela. Estava até elegante, pensou.

Sem dizer nada, e com um sorriso bem sem graça, o beijou no rosto, passou a chave no trinco e dirigiu-se, acompanhado pelo galante que pôs as mãos em suas costas, até o elevador.

E foi justamente quando ele pôde desviar seu olhar dos dela e fitar a beleza de seus ombros desnudos. Subitamente, sentiu-se acanhado ao perceber o quanto era ela bonita. Sentiu um frio na espinha e travou. O embrulho na barriga acompanhado de um inconveniente bloqueio mental que só os apaixonados sentem lhe tomou o ar e as idéias. E o silêncio, sadista, se intitulou senhor enquanto esperavam o elevador.

Foi então que De Marco, sentindo o desconforto e a enxurrada de adrenalina que ele tanto odiava, quebrou o gelo da seguinte forma...

(continua)
Vândeu e De Marco - II Parte
  por Moscou
  em 07/04/2010 14:17
Foram três semanas sem que De Marco visse Ana Mariana. Lapso que o fez questionar se ela havia se mudado. Seu porteiro, com um sorriso de canto lhe lançou um olhar malicioso dizendo que a moça ainda morava lá.

De Marco simulou pouco se importar, mas dentro do elevador, comemorou a noticia quando o funcionário do prédio não podia mais vê-lo.

Já Vândeu retornava do sul após duas semanas de folga. Voltava relaxado, mas a loucura da cidade-zona fez o seu estômago embrulhar quando, ainda dentro do ônibus, estava preso na marginal alagada, onde chovia brutalmente naquela manhã. Ia começar tudo de novo.

Como de costume, tomavam cerveja no boteco e preparavam-se para mais uma noite de trabalho quando De Marco, nessas conversas filosóficas cercadas por azulejos claros e luzes frias, perguntou ao amigo se ele já tinha se apaixonado.

Vândeu, impressionado com a pergunta, mas surpreendendo com a resposta, disse:

- Quem nunca conheceu uma guria que lhe tirou o sono que atire a primeira pedra.

Era justamente o que acontecia. Ana Mariana e seu sumiço faziam De Marco fritar em sua cama enquanto tentava dormir. Como consequência, ele a esperava na portaria do prédio por volta da hora dela passar; procurava enxergar através do olho mágico a sua imagem distorcida, mas tudo em vão. O acaso parecia ter se esquecido deles. E ela também.

Então, angustiado, pensou em ir vê-la no salão de beleza onde trabalhava. Precisava desatar o nó do estômago, livrar o imã das idéias. Mas não havia pretexto plausível para que ele fosse ao salão, e àquela altura, depilar os poucos pelos que tinha no peito não soaria masculino o bastante para impressioná-la, pensou.

Primeiro saiu de sua quitinete, em passos largos pela calçada fitou o cabeleireiro por fora, mas não conseguiu vê-la. Uma senhora gorda de toca rosa e vestida numa capa branca lhe dava as costas e tapava a sua visão por completo. Apreensivo, mas sem alternativas, entrou no salão sem saber o que faria.

A decepção veio de súbito: por detrás da senhora gorda que fazia as unhas, não era Ana Mariana trabalhando.

Mudo, não soube responder à recepcionista o que ele pretendia aparar daquela vez. E olhando anuviado para aquela manicure desconhecida fez a atendente procurar com os olhos os dedos gorduchos do pé da senhora que entre pinceladas ganhavam ares franceses.

De repente, saindo de uma portinhola, Ana Mariana surgiu, e frente a frente, lhe faltou o ar para desajeitada cumprimentá-lo tremendo e com a voz falha. Em seguida, cerrou seu olhar e sentou já esquecida do que iria fazer.

De Marco, branco, já que o frio na sua barriga o possuía por completo e a tremedeira, como um tsunami, começava a lhe chacoalhar das canelas adiante, olhou para a recepcionista do salão e falou: bigode.

O choque e a tensão dos dois foi visível para a testemunha, que com o mesmo olhar e sorriso do porteiro do prédio de De Marco, foi preparar a ficha para o cliente que parecia querer desaparecer daquele lugar.

A senhora avantajada, ignorando por completo a sinergia que ali passava, olhou para cima e, gabando-se das unhas novas que abiscoitava, voltou rapidamente as retinas às novas cores de seus pés, imaginando, provavelmente, seu desfile por cima das sandálias que havia comprado horas antes.

De Marco sentou na cadeira giratória e pelo espelho, dessa vez sem ser discreto, olhava para Ana Mariana buscando contato. Só parou quando o cabeleireiro, um paraíba enjoado que usava sandália de couro e calça capri, lhe fez mirar o teto para com a navalha arrancar o seu bigode disforme.

Então ela, sem deixar que fosse flagrada, começou a fitá-lo.

Quando De Marco pôde novamente olhar o espelho havia mudado por completo, e ela, conhecendo o rosto por detrás do bigode e sentindo o que a sua presença havia causado com sua compostura de mulher firme, voltava a se interessar pelo vizinho, agora, nem tão esquisito assim.

Foi mais ou menos aí, que a coisa toda começou.

(continua)
Vândeu e De Marco
  por Moscou
  em 29/03/2010 11:48
De Marco era cafona ao começar pelo seu nome. Sempre usava uma calça branca réplica barata de couro de cobra, uma bota country de bico fino e uma camisa verde musgo com chifres de touro desenhado nas costas.

As noites se aboletava nas mesas dos bares e perdia-se em doses de conhaque e nas pernas alternantes das moças no vai-e-vem da rampa de seu escritório, a Rua Augusta.

Era sócio e amigo de Vândeu, uma peça oriunda do sul do país, com sotaque dos pampas apaulistado e gosto duvidoso para as vestimentas, assim como seu amigo.

Sobreviviam de bicos ou às vezes de chutes nos irremediáveis playboys que faziam arruaça em seus carros na parte baixa daquela artéria que ligava o alto ao centro de São Paulo.

Eram seguranças das boates onde as moças vendiam seus carinhos por preço acessível aos limítrofes da pobreza. Algumas eram gordas, feias, doentes ou magras demais. Já as bonitinhas, ou menos ruins, eram regalos aos mais afortunados ou sócios de seus patrões e vivam ignorando os dois. Todas, sem exceção, comentavam em tom de desabafo o nojo do bigode castanho claro ralo com fios mais compridos que De Marco ostentava embaixo de seu nariz.

Em tempo de vacas gordas – literalmente - os dois atendiam duas ou três boates por noite, o que lhes rendia o pão, a cerveja e o lazer de cada dia. Afinal, quanto mais barato o programa, mais cara a confusão.

De Marco se derretia por Ana Mariana, uma morena de olhos leves que após terminar com seu namorado, um coroa cabeludo que vendia antiquidades em uma Marajó marrom, vivia sozinha na quitinete vizinha a dele e recomeçava a vida à só.

Ana Mariana era manicure e atendia num salão de beleza ao lado do prédio onde moravam. Geralmente, quando De Marco estava chegando do serviço, ela estava saindo para trabalhar, e cumprimentavam-se com olhares ou então algum som indecifrável vindo da boca – do estômago, no caso dele.

De Marco fazia questão de aparar seu bigode e seu cabelo no salão onde Ana Mariana trabalhava. Mesmo que tal luxo saísse de seu orçamento. Assim podia olhar para as madeixas e trejeitos da moça pelo espelho enquanto aparentava prestar atenção numa revista de celebridades. E ela, fingia não perceber.

Apesar do estirpe esquisito, Ana Mariana não o considerava de todo o mal, pensava que com um pouco de bom gosto e um toque feminino ele ficaria até razoável. Ainda mais sendo ele o seu vizinho de porta.

Já Vândeu, tirando sua paixão pelo colorado, não se emocionava tão facilmente, mas seu coração fervia de raiva, principalmente diante de piadas bairristas e preconceituosas sobre seus conterrâneos. Ele ficava puto e sobrava à racionalidade e frieza de De Marco abrandar Vândeu e seu ímpeto explosivo.

Certa vez, quando já era noite, Ana Mariana voltava de um atendimento domiciliar passando pela Rua Augusta. Vinha dos Jardins, onde acabara de embelezar vinte unhas e arrancar um bocado de cutículas de uma madame gente-boa. Caminhava e perdia-se em pensamentos ritmados pelos estalos de seu sapato no asfalto sujo, mas colorido pelos chicletes secos e bitucas no chão ali deixados pelos indie rockers e alternates que frequentavam aquela região. Pensava na vida, na sorte em não acabar como as moças que nas esquinas trabalhavam e sorria, pouco, mas sorria.

Algumas centenas de metros e passos depois, como um susto, deparou-se com seu vizinho - naquele dia de camisa amarela e calça escura - segurando com força pelo colarinho um bêbado e expulsando-o de dentro de uma boate de fachada com luzes neon verdes e vermelhas que simulavam o balancê de pernas de uma Moulin Rouge comedora de acarajé.

Ela olhou para o chão, fingiu não ter o reconhecido e reformulou todas as impressões que tinha sobre o seu vizinho admirador. Desfez o sorriso e naquela hora, e talvez naquela noite, entristeceu. Andava sonhando, na inocência e devaneios de menina-mulher, um dia, conhecer o rosto por detrás daquele bigode.

(continua)
O tricampeão mundial de qualquer-coisa
  por Moscou
  em 04/03/2010 14:02

O universo está repleto de pessoas chatas. Em qualquer lugar do globo que você esteja haverá um pentelho de plantão. Seja por falar demais, por ter razão em tudo, o sem justificativa, o dono da verdade, o que só fala e não escuta ou até mesmo o que não diz nada.   

Segundo o dicionário Houaiss, chato é aquele que aborrece, irrita, estorva, perturba ou preocupa. Indo mais adentro – literalmente – encontra-se o chato sendo o piolho que habita a região pubiana masculina, nojeira da qual tratarei oportunamente em outro texto.

Atendo-se à primeira definição, de todos os chatos e pentelhos que podemos imaginar, nenhum incomoda e é tão inconveniente quanto o tricampeão mundial de qualquer-coisa.

Este ser, residente perpétuo da masmorra da baixa auto-estima, estende o seu atributo primordial a uma distância inatingível por qualquer outro chato. E cansa, dá preguiça.

O tricampeão mundial de qualquer-coisa conhece tudo. Ele criou Deus, e não o contrário. Ele entende minuciosamente da fisiologia macrobiótica dos átomos e prótons que formaram o universo até a data e hora exata de quando Eva tornou-se mulher, sangrando nos confins do paraíso. Como se não bastasse, sabe diferir se a maçã mordida por ela era do tipo Fuji ou verde.

Não importa as experiências de vida pelas quais você já passou enquanto ser-humano, o tricampeão do mundo de qualquer-coisa supera e vai muito além com sua vasta vivência, contando suas histórias inimagináveis e surpreendentes, buscando, à qualquer custo, a atenção de uma roda qualquer.

Você pode ter sobrevivido à pisadas de elefantes que o indivíduo saca de seu repertório uma história muito mais interessante, de como ele, ou um amigo muito próximo – geralmente muito mais "chegado" que você - sobreviveu à um ataque de hipopótamos em meio à avenida Paulista.

Podes ter sido sequestrado por Bin Laden que ele, ou seu parceirão de sangue, estava junto do Fenômeno Ronaldo quando esse acabava de conhecer Andréia Albertine, o travesti que ferrou – ao pé da letra – aquele jogador de futebol. E ainda mais, Fenômeno ligava pra ele chorando arrependido após o escarcéu que sua vida se tornava.

Nada e nem ninguém, superam as histórias do tri-campeão mundial de qualquer-coisa.

Quando se trata de esportes então, principalmente os radicais, onde a bravura e coragem são essenciais, lá aparece nosso amigo, pomposo ou esboçando uma humildade inerente aos bons, contando de como domou ondas de tsunamis no Havaí, de como faz para manter por dias os 70km/h pedalando no Ultraman do Japão, de como pratica snowboard na garganta dos vulcões mais ouriçados do anel do fogo ou até explicando os meandros da física da raquetada de squash, esporte que domina com perfeição.

E tudo isso, sem falar nas mulheres que já comeu ou de seu círculo social, retendo em seu celular os números mais íntimos de artistas globais, passando por senadores americanos até o mais cruel dos líderes do PCC.

Das raças dos chatos são os piores, como gremlins espalhados pela sociedade, fazendo dos outros os tricampeões mundiais do saco cheio, da audição seletiva e do sorriso amarelo.

Haja paciência.

Aliás, ninguém imagina o que tenho passado com certos tricampeões mundiais...

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Comentários enviados:
enviado por Anita em 19/04/2010 16:10
O texto foi tri-campeão mundial!mas pelo lado bom,rs!
parabéns!
enviado por David em 28/03/2010 19:29
o tiburça é desses que são amigo íntimo do pete, do tiger e da sheila.

affff que cara insuportável
enviado por Parrcero! em 05/03/2010 05:16
É o famoso metido a cagar cheiroso!!!Certa cez estava na fisioterapia e conheci um cara que se dizia jogador de tenis, e que treinava na academia do Agassi em Miami, e que era patrocinado pela Badboy e o escambal...o cara me contava histórias do tipo: O Pete é um cara tranquilo, um cara do bem, as pessoas acham que ele é um cara frio, mas se vc conversar e tal, ele se abre, é sossegado haha (era o Pete Sampras a quem ele se referia). Outra: O cara me contando que ia ter um desfile da Badboy e ele ia participar, a Sheila Carvalho ia desfilar também e tal...nisso eu pergunto pro figura: Vc conhece ela? Ele responde: Porra, irmã!!!
Esse não é nem tri...já é hexa que nem o meu Mengão!!!Abss!
enviado por luisssoon em 04/03/2010 17:18
pura verdade hein meu caro.....
abraco pra vc "campeao"!
huahuahuahuahuahuuahuahhua
enviado por em 04/03/2010 15:21
acho q eu sou tricampeao em amigo chato hahahaha o q eu conheco desses caras....
enviado por Cesinha em 04/03/2010 14:56
Caro amigo Moscou, também conheço muita gente do estilo "Comi o baralho e esqueci de cagar o Rei", e posso te dizer que desejo a morte imediata e dolorida para todo esse pessoal.
enviado por Quejão em 04/03/2010 14:24
Muito bom o texto!!! eu sou só tri-campeão me comida hahahahahaha
A guerra dos mundos.
  por Moscou
  em 04/02/2010 14:45
Os mundos estão em guerra. Pesadelo para os que temem a fragilidade dos seres humanos perante alienígenas de outras dimensões. Afinal, nossas bombas nucleares e degradante evolução nada são comparadas ao conhecimento dos seres de quartzo que viajam entre as galáxias.
 
É um roteiro de filme, certeza velada dos ufologistas (também conhecidos como pinéis ou loucos) e premunição etílica em conversas de botequim para os criativos e vagabundos de plantão.
 
A decepção dessa fantasia, quase róliudiana, é que nossos inimigos não são ETs cabeçudos, de olhos e cerebelo neon cósmico e gosmento de enojar, e que fazem carnificinas terráqueas a laser. Muito menos residem no espaço e usam da tecnologia dos Jetsons para falar ou se locomover. Nada disso.
 
Na atual guerra entre os mundos, bombas não explodem, não há pânico em massa e nosso ego humano prepotente não se esvai no flerte com seres superiores, mais fortes, paranormais e inteligentes.
 
Nossos adversários são ridiculamente menores que nós. Invisíveis a olho nu, e vistos apenas por microscópios durante a sua árdua atividade: ficar imóvel. Assim sobrevivem, sem mexer seus milimétricos corpos em forma de ovos recém estalados na frigideira.
 
São catalogados por nomes e números, inscrição darwiana para os entendidos, formula matemática ininteligível para os desavisados. Alguns vieram de animais, outros do próprio ser humano. Enfim, a ciência explica, mas ninguém entende.
 
Cruéis, muito cruéis; estão em todos os lugares, públicos ou privados, do rico ao pobre, climatizados ou não, viajando entre as tubulações dos ares, na baba alheia, naquele espirro imaculado, dentro do ônibus, na coçada de saco, na sala do escritório, e talvez até dentro daquelas bolhas hipocondríacas.
 
Sua principal arma é a presença. Entram em nosso organismo e esperam nossos anticorpos, pelotão de fronte de guerra paraguaio, os retirar. O mote? Somente um ambiente propício para repousar por alguns dias. Pura inocência.
 
Então, o firme corpo fica febril, a energia diminui, a falante garganta inflama, o pobre intestino abre a boca, o estômago se enrola mais ainda e tudo que se quer é cama. Seja a do hospital ou de nosso porto seguro.
 
Com sorte, vencemos a batalha por volta de uma semana. Reerguemos nossa frágil carcaça e continuamos esperando vir do espaço os seres responsáveis por nossa futura derrocada, cuspindo lasers, combatendo a nossa hegemonia animal e nos colocando em nosso próprio universo nos papéis das formigas.
 
E enquanto isso, noutro mundo bem próximo, lá estão os vírus e bactérias, sobrevivendo aos antibióticos, às mutações químicas e fortalecendo suas estruturas para mais um motim epidêmico bem embaixo de nossos narizes.
 
Uma hora perderemos essa guerra. Se já não perdemos.
Vocês verão!
  por Moscou
  em 08/01/2010 12:24
Sim, era verão! E do vermelho aveludado daquele Natal cheio de músicas e lamparinas chamejantes se fez os fogos multicoloridos do reveillon. Foi só olhar para cima e lá estavam eles, pipocando no céu, enquanto os indivíduos, na terra ou em alguma dimensão ainda não vislumbrada, se abraçavam, desejavam e trocavam boas energias uns com os outros. Um ano novinho em folha para ser desenhado.

Lembro de olhar para cima e, com o desfoque das águas que caíam do meu espaço – onde nada desmoronava, ainda bem – ver as desilusões, decepções e erros flamejando no ar, virando cinzas do passado soterradas por pás de cal, enquanto eram substituídas por desejos, vontades e promessas para o ano que entrava.

Pulava as sete ondas, ou foram dez, não sei, não lembro. Tinha a impressão de que um tipo de energia cósmica que se conectava por bluetooth, viajava através do barulho das ondas até os meus, levando a eles todos os tipos de boas vibrações. Coisa de hippie, mesmo.

A lua tornou-se um holofote. Iluminava a quem queria. Fossem os bêbados, os siris ou os barcos dos pescadores. O sol, rosado do início, passando pelo amarelo, laranja e finalizando no vermelho, aconchegava e esquentava os corpos que buscavam descanso, ou então lembranças o suficiente para relaxar quando tudo aquilo tivesse fim. Esses momentos geralmente não têm fim.

Longe do cotidiano, das confusões dos horários, das cobranças, das malditas cobranças, todos estavam iguais. Os espíritos costuravam um lugar mágico, cheio de olhares, e sorrisos, às vezes perturbados por uma ou outra caixa de som gritando batidas eletrônicas em demasia.

O lugar tornava-se especial a cada segundo. Em cada onda que explodia na pedra, em cada balanço de mar, de canga, em cada risada que se escutava, em cada volta dos fachos de luz que iluminavam o céu, o mar lá no distante e os olhos dos bem de perto.

Largados na areia, de papo pro ar nada mais queria saber. A ordem era navegar nas ondas do mar, e a preocupação era se o sol queimava demais, qual música escutar ou se a água doce estava quente de arder os lábios, já que a salgada...

O ir embora chegaria em breve, fato quase consumado. Deixaria aquele estado - de espírito - para atravessar outros estados dentro de um automóvel, o que deixou de ser, há muito, castigo. Hoje, mais que nunca – como diria o gordo chato – tornou-se diversão, momento para curtir flashbacks esboçando um sorriso de quina às tantas coisas boas que passamos nos primeiros dias do ano.

Aliás, tamanha é a crueldade e sabotagem humana que desses trezentos e sessenta e cinco dias, vive-se intensamente tão poucos. A sua maioria ali, naqueles dias mágicos por volta do Natal e a virada do ano.

Voltamos da Neverlands meninos. Quase acreditando em Papai Noel ou, ao menos, esperando reencontrá-lo o mais breve possível. Mesmo que venha com um saco enorme, inchado e vermelho. Dane-se. Os panetones nas prateleiras de supermercados são presságios da diversão.

Segundo as sagradas escrituras, aquelas lá, Deus criou a terra em seis dias e no sétimo ele descansou. Sim, ele foi pra praia, deitou na areia e sorriu. Era verão.
A vovó
  por Moscou
  em 16/11/2009 12:23
Escorado no banco da bicicleta, com um pé no meio fio e outro no pedal, aguardava o momento de atravessar à rua na irrespeitável faixa de pedestres. Em São Paulo, se não está dentro de um carro, ônibus ou caveirão, os motoristas não consideram mesmo.

De pensamento solto, meus olhos prenderam-se a ela entre os vrum-vrums dos automóveis e os bi-bis das buzinas dos cavaleiros de Lúcifer. Era uma senhora, esperava o ônibus, e pela aparente simplicidade, no mínimo devia contabilizar vários sucessores. Bom, dizem que ter família grande é legal.

A vovó – assim a apelidei - era a mais idosa do ponto, competia talvez com um homem de olhar cheio de pregas e cabelos acajuados por algum experimento de uma neta metida à besta. Mas ele era robusto e tinha as pernas firmes, diferente dela.

Para acabar com a espera, vieram os latões rasgando a faixa preferencial, pulando nas marolas do asfalto e assoviando os freios para avisar que chegavam. Umas quinze pessoas esticavam os braços. A vovó, não, franzia os zóinhos para dar o foco e conseguir ler o destino da viagem.

Leu! Era aquele mesmo. No letreiro do bumba um jardim alguma-coisa. Devia ser longe pra dedéu. Então ela apertou o passo, a sacola que segurava, e saiu ansiosa em direção ao ônibus que encostou há uns vinte metros de distância. Seu cabelo branco, ainda com pinta de banho de final de tarde, balançava no ritmo de seu corpo.

Nessa disparada, uns cinco passaram a sua frente sem lhe dar a mínima, enfileirando-se na porta do transporte público indecente que os aguardava já sem paciência alguma.

Entrou na fila da escadinha, todos pareciam muito altos ao lado dela, inclusive um vendedor de sorvete, baixinho, qual seu isopor estava leve diante da demanda da tarde quente de estalar o chicote.

Ela subiu as escadas com a ajuda do corrimão e sentiu a sauna de ônibus lotado das seis e pouco que não daria trela. Cambaleou por uns instantes. Quem estava sentado olhou para o chão ou cerrou os olhos perdendo-se no som do player, procurando não cruzar olhares e insinuando fraqueza ou cansaço que justificasse a má educação.

Foi ignorada, mas sem abalos, abraçou a trave, mirou o horizonte e foi em pé, segurando firme na levada de mais um dia para o tal jardim-bem-longe.

Pedalando, pensei nos assentos preferenciais, direitos dos idosos, educação... Enfim, a vovó já devia estar acostumada.